Rosa Dourada
Era uma vez, uma criatura que vivia na floresta sozinha. Gostava de caminhar pelas trilhas que já se formara pelos seus passos, admirando a paisagem com o olhar daquele que já sabe o que esperar. Passava seu tempo em busca de alimento, que com sua esperteza, conhecia os pontos ricos em frutas pelo qual podia saciar-se à vontade.
Ao entardecer do dia, voltava a sua humilde caverna, sempre trazendo a sensação de nostalgia. Cada arranhão, cada pedrinha, cada deformidade, cada musgo, cada pequeno bagaço que residia pelos cantos, cada coisa era uma lembrança que fazia seu lar, seu lar.
Seguindo assim, seus dias sempre imutáveis, como se séculos ou milênios haviam se passado, sem contar o infinito anterior, a criatura ainda vivia seguindo fielmente seu papel, tal qual um ator experiente.
Em um dia, durante a caminhada da criatura, nuvens escuras permearam o céu, trazendo trombetas consigo, como se avisasse a chegada esplendorosa do encharcar da terra, com fortes assobios que moviam árvores e luzes tortas que criavam grandes tochas.
Ansioso com tal espetáculo que não lembrava de ter comprado o ingresso para presenciar, corria de volta à sua caverna, deixando para trás restos de frutinhas que não terminara de comer. Juntava forças para não ser levado, assim como as folhagens que se soltavam para um caminho incerto e sem rumo.
Ao chegar onde era sua simples caverna, já não a reconhecia. Talvez esse tenha sido o preço do ingresso desse show que tivera de participar, talvez ela tenha entrado na onda e seguido a marcha das folhas, ou, talvez, assim como ele, sua caverna tenha ido se abrigar em seu próprio lar.
Não tendo para onde ir, a criatura apenas sentou-se agarrando a uma grande árvore que havia ao lado, lembrando de cada pedrinha de sua caverna, mas não com a sensação de nostalgia como era costume, mas sim uma angústia.
Querendo saber onde estava sua caverna, a criatura pensava em soltar da árvore e esperar que os sopros o levasse aonde quer que ela esteja. Entretanto, antes que pudesse cultivar mais desses pensamentos, algo bateu em seu rosto. Abrindo os olhos e pegando-a, notou a bela figura de uma rosa com pétalas douradas que brilhavam, iluminando seu arredor.
Desejando que a Rosa Dourada não voe para longe, a criatura agarrou mais fortemente a árvore enquanto segurava a flor, agora esperando esse concerto se encerrar. Até que um momento, as notas já não soavam mais.
Abrindo os olhos, contemplou o que antes nunca havia visto, ou ao menos não lembrava de ver. A dança da orquestra movimentou as árvores, mostrando lugares e caminhos escondidos por de trás que a criatura desconhecia. Ao lembrar da rosa, voltou a admira-la, notando seu brilho que parecia ainda mais forte. Era uma sensação calorosa e aconchegante.
Mesmo ansioso e com medo, a criatura, também curiosa, caminhou por esses caminhos descobertos junto da rosa, que o ajudava a iluminar sua trajetória. Não era uma estrada agradável como as trilhas que ele já havia criado. Havia muitos galhos, folhagens, espinhos. Ainda queria voltar à sua caverna. Mas além da flor iluminar seu caminho, também iluminava sua mente. Se desfazendo de tais pensamentos, continuou trilhando a sua nova jornada.
Chegando onde parecia ser o fim daquela floresta onde por tanto tempo se abrigava, havia apenas uma planície calma e deslumbrante, uma paisagem que aparentava nunca nem ter sido admirada. Após um tempo sem palavras admirando, como se uma pintura tivesse se tornado realidade, a criatura olhou para a rosa e disse:
-– Você é foda, a hiper melhor melhor rosa que já vi.
Assim, a criatura, junto da sua nova amiga, a flor, desbravaram o novo mundo que haviam encontrado, cheio de loucuras e catapimbas. Mas isso fica para uma outra história.
Continua…